sábado, 30 de agosto de 2008

Momentos deliciosos...



No Bem - Bom conversando com a mãe pelo skype... Fazendo o balanço do dia. Foi um dia que rendeu... escrevi, escrevi, escrevi e arrumei, arrumei, arrumei o quarto! - a minha mãe está pasma como o consegui fazer antes de anoitecer. Almocei com a Lucy piquinina e fartei-me de aprender. Entretanto parou de chover e, ao sair do almoço... o São Lourenço continua! As batalhas continuam... e os sonhos vão crescendo... e... delicioso! Ondas!!! E não tinha biquini... mas fui vestida, calças e t-shirt, por acaso tinha uma toalha no carro. Não deu para o surf... mas lá quase me tornei rastejante, não sou eu na fotografia mas dá para vos passar o gostinho que tive...

São Lourenço!



Às 7h da manhã somos arrancados da ronha pelo som da trombeta que anuncia o início do São Lourenço. É chegado o dia mais esperado do ano, preparado há mais de um mês com ensaios e festas de São Pedro. “Actuação” de discoteca, na noite anterior, alusiva ao Auto e… Os mensageiros de Carlos Magno e do Almirante Balão começam a recolher os seus pares. Aos poucos as ruas, a seu tempo, à sua vez, são inundadas por gente cujo tom de pele contrasta harmoniosamente com as vestes em tons de verde, branco e azul, vermelho, amarelo e cor-de-rosa. Danças e músicas, acenos, abanar de estandartes acompanham os transeuntes que, ao passar dos exércitos, os seguem assumindo o seu papel de figurantes. Exércitos reunidos. É hora de recolher ao castelo onde os seus senhores os aguardam. Almirante Balão, e as suas tropas, untam-se e bebem do óleo sagrado dos deuses, Carlos Magno, e os seus cavaleiros, rezam ao seu Deus. As batalhas têm início, mas não sem antes os bobos serem chamados. Lutam por rebuçados, jogam cartas e à bola, navegam na internet e, de chicote em punho, colocam os curiosos, os comentadores das batalhas, aqueles que dão os seus “bitaites” sobre como atacar, os pontos, os transeuntes, os figurantes, no passeio, a salvo de espadas e escudos. Está em jogo, para além da fé e da luta por territórios, um grande amor entre Floripes (filha do Almirante Balão) e Gui de Borgonha (sobrinho de Carlos Magno). Vai haver casamento, é certo, ou não seria uma bonita Estória de amor. Casamento é sinónimo de toilette e a população responde a este chamamento. De crianças a adultos, passando pelos jovens, todos envergam a melhor roupa, é dia de São Lourenço! E o dia passa, entre batalhas, escaramuças, provocações e cervejas, intervalo para um churrasco e… acontece o rapto. Por livre vontade, Floripes trai o pai e é raptada pelos homens de Carlos Magno, converte-se ao Cristianismo e casa com Gui de Borgonha. No casamento não faltam o bolo de noiva e o champanhe, aias, a segurar o vestido, e os convidados. O bolo é distribuído pelos transeuntes (eu cheguei tarde…) O Almirante Balão, furioso, invoca o seu deus, Mafoma, e, com o seu exército, ataca Carlos Magno. Mesmo apanhado desprevenido, e ao fim de uma árdua batalha, o exército Cristão sai vencedor e, já de noite, pelas ruas se dança e canta vitória dos azuis, verde e branco. Mas o São Lourenço não é apenas o Auto de Floripes… o dia da festa é o dia 15, assinalado com a primeira encenação do referido Auto, e, ainda, com a abertura das barraquinhas, que se mantêm em funcionamento durante a semana seguinte, até à reposição do Auto, dando uma nova animação nocturna à praça principal. Algumas, de donos mais persistentes, mantém-se abertas por mais uns dias, mais uma semana para além do normal. Quase todas as noites há actuação das discotecas ou outro acontecimento cultural, ora organizado pelas entidades competentes, ora espontaneamente pela população. E, assim, assisti a uma exposição fotográfica, a uma apresentação de uma criança, a um concerto da banda dos escuteiros e, pois claro, ao 2-0 do Sporting ao Porto!!!


Sábado de manhã...







Sábado de manhã. 5h50… começo a acordar. Ontem não houve “actuação” das discotecas. Lá fora, um barulho forte de água. Chuva! Lá me torno a conformar. Até Outubro vai ser ligado… levanto-me. Afinal… não!!! É o ribeiro ao lado do Centro. Chuvisca… 6h e “tshaaap”, chuva, bastante, é claro! Dar mimos e um pepino ao Gorila, ligar o computador e aproveitar para escrever, por a escrita em dia. Há tanto para contar… estes dias têm sido bala-bala mesmo!
Início da semana e, cartas! De casa – acabou o embargo e lá me enviaram os preciosos elásticos para o cabelo, que cá não se encontram -, da tia Laura – preciosos CD’s da Mafalda Veiga e do Luís Represas, variar um bocadinho o tipo de música é bom, e uma camisa! A primeira e única camisa que cá tenho e é linda! -, da Carolina – tão bom saber notícias – e do João, através do mail, com fotografias, sinto-me tão perto… E a semana iniciou, também, com uma fantástica parceria entre mim e o Gorila. Estava eu a ver o Bom Dia Portugal e… pá! Matei um mosquito que matabichava na minha perna, calmamente, o Gorila, agarra e come-o. (neste preciso momento o pepino já foi comido e deixei-o vir para “ao pé” de mim. Está em plena luta com o computador… ciúmes… viu um bicho a passar e correu para a janela. Olhou, olhou, viu a chuva e desistiu.) Este início da semana assinalou ainda a minha estreia em processo penal, defesas oficiosas de processos sumários, “complicadoê”! casos dos quais só tomo conhecimento na audiência… Leis… “Ne pas”… uma parte do código penal fotocopiado e mais nada. O nosso já sofreu tantas alterações… Mas com a “lata toda” pedi adiamento de julgamentos, por falta de informação ao réu que podia arrolar testemunhas, abertura de instrução e, consequentemente, passagem ao processo de Querela, e ainda absolvição do Réu e condenação da ofendida, não apenas no pagamento das custas judiciais mas por falsas declarações - este caso foi o cúmulo do teatro, mas a senhora teve azar de estar eu como defensora oficiosa, que até já levei um murro no olho e portanto sei bem as mazelas com que se fica e com que não se fica, para além das testemunhas oculares que foram ouvidas. A senhora, então, tinha levado tantos murros que até fez “como quem perde a consciência”, abriu “os olhos nos braços de alguém” que nem se conseguia lembrar e sentiu “assim que nem sei que lá”, tudo acompanhado dos respectivos gestos e expressões faciais teatrais, ao pior nível. Mas não tinha nenhuma mazela… E, de entre tantos casos surreais, o melhor foi o da Lapa, só filmado, mas vou tentar contar-vos. O auto de notícia fazia fé que x tinha dado com um remo nas costelas do y. Pois bem, vamos ouvir o x, que é o Réu (nome horrível e que eu sempre substitui por arguido… realmente dá logo uma carga de culpabilidade muito grande). E a confissão foi algo como “depois da pesca estávamos na canoa e chega não sei quem lá de outra praia e inguiça por nós não termos conta no banco. Eu respondo e o y diz que não preciso de ter conta no banco porque também não tenho dinheiro que não trouxe nada da pesca. Brincamos um bocadinho assim como quem dá uns socos e eu deixo de gostar da brincadeira e vou para ele e ele está com uma faca de emalhar na mão e dou-lhe com o remo”, pois claro! É a vez do ofendido… a mesma estória mas com o acrescento delicioso de “ó chefe (o juiz muitas vezes é interpelado por “ó chefe”) eu até lhe disse, compramos 2 garrafões de vinho pomos ali na areia e vamos lutar como homens grandes. Ele não gostou e deu-me com o remo. Eu achava que ele gostava de vinho…” perplexidade no tribunal! Mas a maior delícia estava para vir… “pode trazer a testemunha” diz o juiz para a funcionária. “Testemunha? Pois… foi-se embora. Disse que não estava para esperar mais e foi-se embora, agorinha mesmo.” O juiz emite o mandato de captura e o julgamento fica adiado para as 15h, hora em que aparece a testemunha escoltada pela polícia e pela funcionária. Inicia com a inquirição do porquê de se ter ido embora. “Um homem tem fome, eu não tinha matabichado e a fome própria estava doer, eu antes própria da porta estar aberta já estava cá. Vim da Lapa, por aquele caminho do mato, já era como o meio dia e estava com muita fome. Só fui ali ao lado, à praça comer um pintado, mas depois eu vinha, vinha mesmo. É a primeira vez no tribunal e na polícia (nesta parte, o discurso que já vinha sendo dito num tom alegre, aumenta e o sorriso fica mais rasgado) e é bom mas eu cá não sou homem de confusão, nunca fiz confusão”. Finalmente o juiz consegue cortar-lhe o discurso e explica-lhe/perguntando-lhe se sabe qual é a sua função ali e que ele tem de dizer a verdade, “eu sátiro só digo a verdade, não vim para mentir” e olha para mim e sorri, o juiz chama-o à atenção para o facto de não o poder interromper e ele “tá bem, mas eu só vim para dizer a verdade, não acha menina?!”, começa a ser difícil ao tribunal manter a postura… (o Gorila apanhou um gafanhoto e delicia-se) mas o “pior” está para vir. Momento do juramento… juiz explica que pode jurar por honra ou por Deus e, ao fim de uns coçares de queixo e uns torcer de nariz “hum… pode ser por Deus!”.
Juiz – Juro por Deus,
Sátiro – juro por Deus,
Juiz – dizer a verdade,
Sátiro – dizer a verdade,
Juiz – e só a verdade,
Sátiro – a minha verdade própria. (e bate com a mão no peito!)
E, ao nosso olhar perplexo, espantado explica – pois claro eu vim só para dizer a verdade, eu já lhe disse, é a primeira vez em tribunal, não vim para mentir! (tudo acompanhado com expressões faciais deliciosas) o juiz lá explica que tem de repetir tudo o que ele diz, que é uma formalidade, e tudo corre bem até à redundância… “claro que vou dizer a minha verdade própria!” “porque havia de mentir?” “eu só digo a verdade” “a verdade própria”, e, depois de, ao tribunal, ser impossível conter as lágrimas de riso, lá conseguimos que o senhor fizesse o juramento. Lá contou a história… “estava sentado na minha canoa própria, feita com muito – faz o gesto de talhar – meu” “a hora?... noitinha…” “hora mesmo?... umas onze…” “sim, da manhã… eu tinha chegado da pesca” “o dia?... bem, eu não vou mentir ao senhor. Sabe… eu já estava assim – e sorri – um bocadinho aquecido, sabe como é” e num repente vira-se para trás e calmamente “mas vocês que arranjaram a confusão lembram-se certamente do dia não é?” o juiz lá lhe explica que ele não pode falar para trás, que esse trabalho cabe ao juiz “está bem… mas vocês lembram-se!” torna a virar-se para a frente “Foram eles que arranjaram a confusão… eles lembram-se!”
Absolutamente delicioso este Sátiro…
E muitos casos de remos, murros, difamações foram defendidos esta semana. Somos apenas dois juristas na ilha, o outro é o presidente da assembleia regional, está impedido. O juiz e o Ministério Público estão em São Tomé e vêm cá de tempos a tempos e esta gente é defendida por funcionários que nada alegam, nada dizem… Pelo menso desta vez tiveram uma defesa digna.
Bem… e nisto tudo ainda se prepara e ultimam os pormenores para a abertura do Centro. Quarta-feira, dia 3 de Setembro, já temos data, transporte para os idosos e gente para capinar. Foi difícil… muita ginástica… mas conseguimos! Houve dias stressantes!!! Uma maravilha…
E, nesta semana, ainda houve tempo para arrumar e desarrumar o centro duas vezes por causa dos senhores da MEP, a brigada anti-mosquitos que anda a flirtar as casas com produto, uma iniciativa da cooperação de Taiwan, e que diziam que vinham mas depois não vinham, até que “eu própria” – já estou a apanhar – os fui buscar e fiquei dois dias aflita dos olhos e da cara… (entretanto encontro na minha t-shirt uma asa e uma pata de gafanhoto).
Quinta-feira foi segundo dia de espera do barco, não só por falta do gasóleo na ilha e o carro estar sequinho, mas, essencialmente, pelos bens que vieram para abastecer o Centro. Chegou, ao final do dia. Só ontem descarregaram e… legumes estragados. Um desperdício. Não vai ser fácil… foi também dia do embarque, no avião, do Pde Manuel, vai até Algés continuar a sua missão. Até dia 13 de Setembro ficamos sem Padre, dia em que chega o Pde Arsénio, da Ramada.
Veio a energia!!! Mesmo a tempo… a bateria estava a dar as últimas… deixo-vos com fotografias do acampamento e abertura do ano escutista, que aconteceu na outra semana, e por onde também me fui dividindo, e do Gorila a deliciar-se com o gafanhoto.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Bala bala e com muita paciência

E enquanto scanerizo mais uns orçamentos, (a ver se o Centro abre!) escrevo este post. Na televisão, que está com umas incertezas quanto a transmitir a emissão, é sempre assim depois de vir a energia, chuva, emissão, chuva, emissão, e lá se decide, toca o Rui Veloso com a Ilha do Pessegueiro. Daqui a pouco, um bocadinho do Bom Dia Portugal e Portugal Contacto, que como boa migra até “papo” e por vezes com algum interesse! Migra…
Ontem fiz a minha estreia em tribunal!!! Defesas oficiosas… e que tribunal! E que casos! Que testemunhas! Que arguidos! Que ofendidos! Os casos foram de injúrias e ofensas corporais simples, marido e mulher. Que papel ingrato o meu, especialmente quando ao perguntar ao arguido, tentando atenuar-lhe a pena, se ele está consciente que cometeu um crime, se ele o tornará a fazer ou apenas o fez pela pressão da sociedade por estar sem emprego, por a mulher não querer ter relações com ele, por dizerem que a mulher tem outro e por ainda não ter conseguido ter filhos, e ele me reponde “isso é vérdadi dona, más umas bofetadas são boas para chamar atenção”. E o Príncipe não tem estabelecimento prisional, o governo acha dispendioso enviá-los para São Tomé e lá ficam com penas suspensas… E depois lá vêm as “estórias”, contadas desde o tempo dos trisavós que já se conheciam e ou que eram primos, amigos ou inimigos, e o réu (por cá arguido ainda não entrou no sistema) estava com o companheiro que andava com ele e disse-me não sei que lá no dia trespassado depois de me ter encontrado com o fulano depois da missa, que não tinha sido num domingo. Alguém consegue entender??? Hoje há mais e estou cheia de vontade!!! Honorários? Esqueçam… eles nem dinheiro têm para “mandar cantar um cego”.
Nos entrementes, ou no plano principal, a festa acabou ontem, na Romar (uma Pensão), prometia festa e surpresas para terminar este mês de São Lourenço mas… era o Ely Trindade a cantar, e nós que andámos a fugir dele o fim-de-semana inteiro… O Ely Trindade é o cantor pimba cá do sítio, não sei se se pode falar em Pimba por estes lados, mas não gosto muito, as músicas não são muito dançáveis. Lá o ouvimos, mas a chuva começou a cair e casa! J Tem chovido todos os dias, com abertas durante o dia, com chuva no Rio e na estrada logo ao lado não, com molha do Centro mas do carro não. Maravilhoso. Domingo, dia da reposição do Auto de Floripes, não escapou… mas às 8h, quando começou a busca dos pares, parou e aguentou até ao fim do Auto, 20h e pouco, desabando depois. Lá se cumpriu a tradição que em dia de São Lourenço nunca chove!
E em nota de rodapé… o Nicolau continua a desaparecer e a aparecer. Eu cheia de pressa e o Nuno, amoroso, calmamente e vagarosamente pergunta como estou, se está tudo bem, que é preciso lavar o carro, etc, etc, e eu que estou bala bala a enviar os orçamentos para a Mila, para tomar o pequeno-almoço e ir para o tribunal!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Festa...



E enquanto o meu mano foi buscar o Fera para eu o ver, iniciei este post... mas o Fera tinha fugido! É verdade... é a última novidade da Ilha, no bem-bom consigo falar pelo skype!!! Portanto... quem quiser ouvir a minha linda voz adicione-me - Mafalda.Velez -, eu estou cheia de saudades de vos ouvir. Hoje vou, apenas, fazer um pequeno resumo do que foi a última semana, notei, à pouco, que já não dou notícias há uma semana! Sintoma... sintoma de Príncipe em festa e trabalho, e cada vez mais integrada nesta vida "principesca". É verdade... é a loucura! O Auto de Floripes começou às 7h da manhã e terminou às 20h, depois conto como foi, com uma reportagem digna que agora me é impossível escrever. Domingo vai haver reposição e terminará a loucura. (notas importantes... a A5 é o melhor acesso a Lisboa! Vão ter aguaceiros a norte e no centro, por cá espera-se chuva... "a potes"!) Como estava a dizer, festa que é festa exige mais animação e mais gente, assim, estão, por cá, dez vezes mais pessoas que o normal, no entanto continuo a ouvir que a cidade está vazia... pobre gente, perdoa-lhes Senhor que não sabem o que dizem! Estrangeiros... ;) E, assim, todas as noites tem havido animação, mesmo que seja só nas barraquinhas. Somente sábado houve descanso (eu já estava a desanimar), dia seguinte ao Auto, em que nem pão houve na ilha - também porque o dono da padaria é adventista. E, para finalizar.... ontem estive na esquadra da polícia por um despiste de um amigo meu que não tinha carta (o que por cá é o comum, não há escola de condução... nem de mota nem de carro, o normal é não terem carta). O filme... surreal, pois claro! Desde militar a vir buscar-nos, a polícia com calções e pólo vermelho a mostrar a barriga dizendo que era o subchefe, para não falar do cheiro a cacharamba, até a justificação para a apreensão do carro ser que quem tinha chamado a polícia é o secretário das infraestruturas. Claro que hoje de manhã deu motivo de pedido de imensas desculpas por parte do comandante e pagamento da multa pela contra-ordenação. Por cá os códigos são todos anteriores a 1975, ainda não era crime. Entretanto, estão cá os escuteiros para o ACANAC, e chegou também o Juiz que me pediu para fazer umas oficiosas! Matar saudades!!! E são as últimas da Ilha... ;)

Deixo-vos umas fotografias do Auto de Floripes, água na boca...

Reparem bem em todos os figurinos, desde os trajes às posições bem como aos escudos que indicam os personagens!